É FILHO DE BOA GENTE!A l'attention de mes lecteurs :

GUERRA COLONIAL EM ANGOLA. DO ZAIRE AU CUNENE, PASSANDO PELOS DEMBOS.
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OBRIGADO PELA SUA VISITA.

QUEM NAO SE SENTE, NAO É FILHO DE BOA GENTE!


Se servistes a Patria que vos foi ingrata, vos fizestes o que devieis, e ela o que costuma.
Padre Antonio Vieira.

A nação é de todos. a nação tem de ser igual para todos. Se nao é igual para todos, é que os dirigentes que se chamam Estado, se tornaram quadrilha.
Aquilino Ribeiro. In quando os lobos uivam.

"patria", confiscaste-me os meus melhores três anos. Diz-me agora o que posso confiscar-te.

jeudi 14 novembre 2013

SALAZAR É QUE ESTA A DAR



O homem não bebia, não fumava e era bem apessoado. Penteado de risco ao lado, gravata, um perfil adunco disfarçado pelas sombras do olhar, entre o manhoso e o matreiro, o sagaz e o perspicaz. Manhoso é matreiro e sagaz é perspicaz. Apliquem-se adjectivos de significado único e finjam-se distintos e múltiplos, foi esse o truque de Salazar. Havia um Parlamento, era dele, era um Parlamento. Havia eleições, eram dele, eram eleições. No tempo dele não havia escândalo nem corrupção porque não havia quem os denunciasse nem imprensa que os publicasse, a PIDE e a Censura vigiavam, e o salazarismo passou como um período ideal, autoritariamente ideal, em que os homens políticos eram limpos e defendiam o império, governavam e não se governavam. E aquilo dos Ballets Rose murmurou-se nos corredores e salões como uma anedota distante, tão distante como África e as histórias das mulheres dos sobas ou as lendas das cabeças empaladas dos pretos. Os canibais andavam por aí, nas casas grandes e sanzalas do Restelo, do Estoril, de Sintra, dos lugares chiques onde moravam os ricos e poderosos. E Portugal era grande, assente sobre um povo escravo e analfabeto, trémulo e rapado. Sem ofensa. Um Portugal construído sobre pilares de medo em que se temia tudo, o padre que arrecadava confissões e adultérios, o marido que batia na mulher, o vizinho do lado que era pide, o colega de escola que batia nos outros e carteava um trunfo de pai-ministro, o polícia que usava a farda para comprar fiado. E como todos eram muito pobres, comprava-se açúcar amarelo a prestações, e Omo, e marmelada, e iogurte, e bolachas torradas, luxos. A taberna não fiava. No país das meias-tintas calçávamos meias-solas fiadas no sapateiro, e a vida era vivida a prestações e cobrada aos fins de mês, a data histórica do ano. Ao-fim-do-mês-pago, e as criadas contavam das patroas que dormiam com os credores para adoçar a dívida, uma prostituição muito consentida visto que as mulheres, naquele tempo, ou eram mães ou eram putas. As que não casavam era freiras ou madrinhas-de-guerra. As do regime eram do Movimento Nacional Feminino, instituição de caridade montada com laca de cabelo. As mães mandavam os meninos para a guerra nas colónias em barcos imensos e recebiam cabogramas anunciando a morte. Mais as lágrimas do Natal do Soldado que eram espectáculo de televisão. Para as minhas mulheres, mães, madrinhas, noivas e demais família um Natal muito feliz e com muitas propriedades. Os mais letrados riam-se muito dos soldadinhos de chumbo, broncos que nem sabiam soletrar prosperidades. O povinho era assim e não se lhe podia dar o voto, acabaria por estragá-lo, Deus e o Cardeal Cerejeira nos livrem. Os valentes soldados Silvas nunca mandavam propriedades para as filhas porque não tinham chegado a tê-las, rapazes de mama atirados para o mato com uma espingarda nas mãos por amor à pátria. A pátria devolvia o cadáver. Os que morreram nem chegaram a saber por que tinham morrido. E os que não morreram e ficaram sem olhos, sem mãos, sem pernas, sem juízo, nunca chegaram a ser lembrados pela pátria madrasta. As mães e viúvas de negro choravam nas campas dos cemitérios de aldeia, os homens tiravam respeitosamente o chapéu, e depois tudo se sepultava no esquecimento. Os filhos dos ricos e dos poderosos eram "dispensados" da tropa, e os filhos da burguesia fugiam para os cafés de Paris e o "estrangeiro". O fascismo nunca existiu. Alguns deles, alguns, foram dar com o rabo sentado na selva e começaram a perguntar: que faço eu aqui? Alguns deles tiveram a coragem de fazer uma revolução. Salazar morreu no conforto da cama e da manta e da governanta antes de constatar a heresia do 25 de Abril e o cheiro dos cravos. Os herdeiros foram para o Brasil dar aulas na universidade e os pides foram recuperados para a sociedade porque somos assim, um país de brandos costumes onde nunca há mortos e feridos e ninguém há-de escapar. A guerra de África? Aquilo era lá longe, e não havia televisão, nem fotografias, nem relatos dos massacres. Nem liberdade. E Salazar é que sabia, Salazar é que mandava. Nas escolas, nós, servos descendentes de reis e heróis do mar, de padeiras e assassinos, de sonhadores e magos, nós Pessoas geniais iguais umas às outras, gritávamos obedientes, Salazar, Salazar, Salazar! De mãozinha esticada. Aquilo fazia lembrar Hitler e a II Guerra de que o chefe nos tinha defendido, a honra de não ter combatido o nazismo com os Aliados e ter jogado com um pau de dois bicos, o coração nas Potências do Eixo, a cabeça na geografia atlântica. Era preciso poupar o cais e o apeadeiro chamados Portugal. Arlequim que serve a dois amos, eis a essência da nossa alma. E Vocelências que me desculpem, que já vou saindo desta crónica de cachaço rente ao chão e pela porta de serviço. Sem ofensa.”
Clara Ferreira Alves
( Com a devida vénia.)

mardi 3 septembre 2013

PARTIDA PARA MOÇAMBIQUE


As amarras se desprendiam
O barco partia
No cais,
Grossas lágrimas se vertiam

Lenços a abanar
Gentes com dor
Lançam gemidos
Sempre a soluçar

Para que tudo isto,
Pergunto eu?
Ninguém responde...
Partes para lutar.

O convés esta cheio de marujos
Que jogando...
E assim se distraindo
E, sem saber porquê
Se vão partindo

Gaivotas esvoaçam
Os fuzos no porão,
As mãos entrelaçam.

O paquete
As aguas vai rasgando
E, do destino
Os mancebos
Se vão aproximando.

Perto do cais,
Daquelas terras
Que, tão diferentes são
Porque desembarcamos?

Pergunta sem reposta!
E todos pensam
Será que
E para defendermos
Este chão?!

Fernando S. Leitão.






mardi 16 juillet 2013

GUERRA EM MOÇAMBIQUE. (Operação Planalto).




A primeira mina antipessoal em Moçambique rebenta no dia 14 de Junho de 1965, na zona de Cobué, distrito do Niassa. Esta região de resto, há-de ficar conhecida entre os combatentes portugueses como o estado de minas gerais. Que o diga o alferes  António gomes, sapador do Bat. de Cac 598. Em dois anos de comissão, detectou 560 minas. As companhias que actuavam no Niassa temiam sobretudo as minas antipessoais e anticarro. As bermas da picada eram depósitos de sucata retorcida.
No planalto dos Macondes, vizinho distrito de Cabo Delgado as emboscadas eram o perigo que mais se receava. O comandante-chefe de Moçambique, general Carrasco, lança nesta região a primeira grande operação militar em Moçambique, a Operação Águia entre 2 de Julho e 6 da Setembro. Participam o Batalhão de Caçadores 588, o B. Caç. De Nampula, o B. Caç. 729 e uma bateria de Artilharia.

(In Os anos da guerra.) Com a devida vénia.
A operação executada entre os rios Rovuma, na fronteira com a Tanzânia, e Messalo, tem como principal objectivo esmagar a guerrilha do Planalto dos Macondes. A ordem de operação manda “ desenvolver uma actividade destinada simultaneamente a exercer uma acção de presença junto das populações, destruir instalações  caracteristicamente terroristas, furtando assim aos bandos inimigos todo o apoio por parte das populações comprometidas ou não”.
O dispositivo militar em Cabo Delgado estava centrado em Mueda. Foi a partir desta zona, no coração do Planalto dos Macondes , que a operação se desenvolveu.
Dez mortos.
As forças portuguesas encontraram sérias dificuldades desde o inicio da ofensiva. Foram surpreendidas, segundo o relatório da operação, pelo “elevado numero de emboscadas e de acções de flagelação”. Nos primeiros dias as acções de guerrilha fazem quatro mortos e 18 feridos .
A Força aérea entra em acção no dia 8 de Julho e descarrega bombas sobre Muatide. Nem assim os guerrilheiros abrandam. Entre os dias 14 e 30 de Julho, as emboscadas sucedem-se um pouco por toda a zona da operação. Tombam em combate mais seis militares portugueses e são evacuados com ferimentos graves.
(In Os anos da guerra.) Com a devida vénia.
As noticias que chegam ao quartel-general em Lourenço-Marques, não são nada animadoras. Os relatórios enviados pelo comando da operação dão conta de”um inimigo numeroso, fortemente  mentalizado, bem armado que se habituara a actuar com relativo à-vontade na zona”.  Ao contrario do que planeara o comandante-chefe general João Carrasco, já não era possível desalojar os guerrilheiros do Planalto dos Macondes. Os portugueses tinham perdido a batalha da conquista da população que prestava o inestimável apoio de que a guerrilha tanto necessitava : o povo do planalto era para os guerrilheiros como agua para o peixe.
A partir do final de Julho, a Operação Águia foi perdendo de intensidade. As unidades instalam aquartelamentos e passam a fazer batidas, até que a operação é dada como terminada em 6 de Setembro. Os resultados finais são modestos em comparação com os objectivos inicialmente pretendidos. Já então o Planalto dos Macondes é uma das mais duras zonas de toda a Guerra Colonial: os guerrilheiros são numerosos, estão bem armados e dispõem de bases importantes.

(in as grandes operações da guerra colonial).

vendredi 28 juin 2013

FADO CHECA. (ADEUS COBUÉ E NIASSA)




Benvindo checa[1]
A esta guerra que te espera
Não venhas triste
A guerra é boa
Só fazes cera.

Vais ter saudades
De mulheres brancas
Ai que tormento
Aqui há pretas
Mas tem cuidado
 Com os resquentamentos

Checa danado
Desta guerra muito lixada
Não chores o desgraçado
Não vale a pena chorar

Checa bem-vindo
Chegas-te e agora eu já vou indo
Afinal mal encavacado
(Foto net).
Que vieste  cá fazer?
Tu és um checa
Vieste para me render.

(1) Apelido aplicado aos militares recentemente chegados da Metrópole.
Em Angola, éramos maçaricos.

Meu irmao Fernando propos-me estas quadras sem precisar o nome do autor.









vendredi 21 juin 2013

METÂNGULA.



Fernando S. Leitão, ou seja o meu irmão, pertenceu
à Companhia de Fuzileiros N° 4, prestou serviço
em Moçambique nomeadamente em Metângula,
Cobué e Machava. 1968/1970.

Adeus Metângula, adeus comissão,
Já vou p’ra cidade
Até me da vontade
De me atirar p’ro chão
Deixei o farol, que o control regula
Vou pelo caminho
Dizendo baixinho
Adeus Metangula.

Adeus Cobué e Niassa,
Onde tanta fome se passa
E dos bailes ao luar
Onde o fado já morou
Adeus o “turras” banais
A mim não me lixais mais
A guerra para mim passou!

Adeus Metângula, adeus comissão,
Já vou para a cidade
Até me da vontade
De me atirar p’ro chão
Deixei o farol, que o tempo regula
Vou pelo caminho
Dizendo baixinho
Adeus Metângula!!!

Fernando S. Leitão.
A prova de que o inimigo estava bem armado.

samedi 25 mai 2013

JA QUE VIERAM ATE AQUI...




Naquela manha pardacenta de 7 de Janeiro de 1972, deambulávamos pelo cais aguardando a hora de embarque, quando vi o Com. da minha Comp. Aproximar-se do segundo Com. de Bat. Segredando-lhe algo que não entendi. Já a resposta do Major mais sagaz, foi clara , sem ambiguidades: Já que vieram até aqui...

Nos deambulavamos pelo Cais.
Foto extraida do blogue du nosso Bat.
(com a devida vénia)
Compreendi então o teor da intervenção do Capitão: Vendo-nos em liberdade, temia que aproveitássemos a deixa para dar o fora, mas para onde? Na “minha” Beira mais que interior, nunca ouvi falar de exílio politico, quanto aos meus prezados colegas que andaram com os livros debaixo do braço até ao serviço militar, não sei se por medo ou por outra razão,  mas era assunto tabu.
Também não fazia parte da nossa cultura fugir. Vezes sem conta durante a minha curta escolaridade entoamos “Os Lusitos” , quantas vezes levava para o recreio o “meu” livro de Educação Moral e Cívica, e todo orgulhoso, (nem todos tinham um livro assim), “convidava” alguns colegas e, sentados no chão de uma espécie de curral, adjacente à moradia que servia de escola, cantávamos todos os Hinos  e mais alguns, e quando nos preparávamos para dar tudo à Pátria, temia o nosso Capitão, que “déssemos o fora”. Não, meu Capitão, nao foi para isso que fomos embalados por todos aqueles Hinos.
Hino da Mocidade Portuguesa.
Letra de Mario Beirao
Melodia de Rui Correia Leite.

Embalados que fomos, por todas estas
lições de Patriotismo e orgulho,
temia o nosso Capitão que
desertássemos?!
Pairava ainda no ar o drama dos Nove emigrantes/que dos seus lares distantes/P’ra  França queriam seguir/ Foi então em  Montalegre /Que a guarda os persegue/ Não os deixando fugir/ Um tiro foi disparado/Sendo António Chança alvejado/ Por uma bala certeira/ Também ferido de morte/ Teve assim a mesma sorte/ O Manuel de Oliveira.
Estas a ver Zé Oliveira, o que nos podia acontecer?!  Nos iríamos p’ra guerra como nos ensinava o nosso livro de leitura: (Se um dia a Pátria vos pedir auxilio, dai-lhe tudo: sangue e vida, meus Portugueses pequeninos).
Vem dai Zé; digamos a essa “pátria” que merecemos melhor tratamento que aquela esmola que nos querem dar. Tu que como eu sais-te da “escola” aos dez anos para trabalhar no campo, enquanto não tínhamos para quebrar rochedos com uma marreta de sete quilos, digamos a essa gente que estão errados.
A PATRIA HONRAI, QUE A PATRIA VOS CONTEMPLA!
NOS HONRAMOS A PATRIA, OXALA ELA NOS CONTEMPLE.
A.L.

vendredi 24 mai 2013

(PARA OS CRITICOS) R. MUITO PARA ELES.





Fins de 1974, no extremo sul de Angola, a nossa comissão arrastava-se penosamente quando fui testemunha de uma cena, algo insólita.
Estava eu em companhia de um colega que devendo ser transferido, solicitou a secretaria, a fim de que lhe fornecessem algumas esferográficas ao que a dita acedeu, evidentemente e quando o “estafeta” lhe trouxe o referido material, exclama o meu prezado camarada:
Podem muito bem dar-me isso tudo,( r.) muito para eles.
Fiquei atónito, mas mantive o silencio, visto o fascismo militar, ser pior que o outro. Se mantive o silencio, não esqueci e como fui a única testemunha da cena, seria pena levar o segredo comigo para a sepultura.
Para que não haja ambiguidades convém esclarecer que por “eles” se entendia o pessoal da secretaria, mas o pronome pessoal devia ser posto no singular e certamente em maiúsculas: “ELE”, porque se fomos lesados, só ELE  podia beneficiar do que quer que fosse, todavia falemos no condicional por prudência. 
Fazendo uma retrospectiva, vejamos:  Em Ambrizete, ou seja onde iniciamos  a comissão, havia uma riqueza incomensurável na imensidão Oceânica, mas não possuíamos frota pesqueira através da qual pudessem ser desviados uns tantos carapaus ou sardinhas. Nas cercanias  de Nambuangongo  havia  muito café, mas não éramos proprietários  de nenhuma fazenda ou roça que proporcionasse o desvio de uns grãozinhos.  Em pereira d’Eça nem mandioca havia, consequentemente não consigo desvendar como alguém poderia lesar-nos.
Mas ... Se o nosso Estimado camarada declarou ter (r) para alguém sem que ninguém o interrogasse ou torturasse,  algo de misterioso subsiste.
Pode parecer mesquinho, recordar estes factos quatro décadas depois, mas é sobretudo confrangedor constatar que como se a guerra não bastasse, haver alguém capaz de manipular um colega nosso, a fim de que este nos lesasse. Com (r) ou sem eles algo aconteceu. Convém que se saiba que a guerra não era só entre brancos e negros, havia outra guerra que emanava do ar condicionado e nos condenava a certa miséria.
Se os críticos o desejarem, posso publicar aquela estoria que começa assim: Você agora, não é vagomestre, você agora é sapador.

A.L.